Dr. Saúl, "punhos de renda"


 

Dantes era outra vida que não é agora. As nossas brincadeiras eram na rua, a jogar à macaca, fazíamos uns riscos com um giz, à corda queimada, às rodinhas, dávamos a mão uns aos outros, a gente ia com um lenço, à noite, a cantar. Não tinhamos brinquedos. A minha mãe é que fazia umas bonecas de trapo, umas monas e com o lápis fazia uns olhos. Agora é outra vida, têm tudo. Dantes, davam-nos um bocado de pão com açúcar e metiam num farrapo, era uma chucha de farrapo. As crianças adormeciam com aquilo. E nem havia leite, era água fervida com sopas de sêmea negra.

 

Dr. Saúl teve sorte. Foi entregue aos patrões fidalgos. Educaram-no como se fosse filho e, assim, criaram um burguesinho. Fez-se Doutor em Coimbra. Era uma jóia de pessoa, muito honesto, muito educado, género "punhos de renda". Atendia os pobres sem cobrar, porque os ricos pagavam por eles, dizia. Mas a bebida deu cabo dele. Ficou sozinho e isso é que o desgraçou. Nem os pobres lá iam, tinham medo.

 

Ao som do duo musical  D'Arpa e Dança, Dr. Saúl dança sem parar, com a técnica de um profissional. As interrupções para os leilões de animais vivos são um aborrecimento. O animador da festa, Bezugo, das Produções Pôr do Sol, entrevista o herói da festa. A quermesse e o bar deixam de atender. Hoje, todos dançam sem parar. Amanhã, ninguém paga consulta!

publicado por Capa Rota às 15:06 | comentar