Rua por Detrás da Quinta


É a rua da esquina, antes de chegar à estação de embarque. O primeiro comboio a chegar é o da Figueira.  Aguardo o próximo,  carruagem 23, lugar 98.

 

Há quem não se habitue às marcações, como há quem não se habitue ao novo dinheiro. Os velhos da terra passam o tempo desconfiados com esta coisa dos euros. Lá vai o tempo das viagens de comboio em primeira, segunda e terceira classe. O tempo das cestas de vime recheadas,  bem ou mal acondicionadas, dos paninhos bordados, dos garrafões de pinga caseira, dos galos vivos para a cabidela na cidade, das novidades cantadas. Lá vai o  tempo em que cada viagem, tamanha açougada, parecia o dia do juízo final.

 

Até Pombal, a viagem é em pé. Não há uma só alma bem sentada. Todos reclamam o seu lugar. O pica-bilhetes, fecha-se no W.C. O cansaço, sem ar condicionado, afoita o discurso. Um conjunto de amulatados, raros por aquelas bandas, alegam uma espécie de racismo. -"Gostam de implicar connosco porque somos pretos!" -"Viva o regresso à trincheira firme do socialismo em África!", penso eu, assim mesmo, sem a menor sombra de ironia.

 

Entroncamento.  A malta vocifera, ainda, de punhos no ar. O palerma do lado corre os toques do seu novo telemóvel, com o volume no máximo. O W.C continua ocupado. A vendedora de pastéis de Tentúgal, não consegue atravessar o corredor. O comboio não apita, mas a viagem é uma festa!  Os headphones deixam-me amoucada. Estou a meio caminho de casa. 

publicado por Capa Rota às 19:48 | comentar