Pretérito Mais-que-Perfeito


Eu tinha uma tucha com cabelos castanhos. Elas tinham duas bonecas francesas, loiras, com um botão na barriga que, carregando, lhes fazia crescer o cabelo. A Alina, quando mexia as pernas, virava a cabeça e, como era mais pequena, era a nossa filha. Faziamos lindos vestidos com os naprons da sala. Os maridos eram o chorão e o palhaço. Fechadas na casa-de-banho grande, usavamos as pinturas da mãe e os sapatos de salto. Queriamos ser cabeleireiras. Depois, crescemos. A Cristina andava na escola com uma miúda muita estúpida que cantava nos Ondachoc. Quando a encontravamos na rua, cantavamos as músicas utilizando, várias vezes, as palavras - cocó e chichi. A vizinha do 12º andar tinha-se atirado da janela abaixo mas não morreu porque vestia, na altura, uma saia rodada que lhe aparou a queda. Gostavamos pouco de jardineiras, vestidas ou no prato. Picavamos os dedos com alfinetes e faziamos juras de sangue. Um dia, apanharam piolhos, até nas sobrancelhas. Eu não, mas não me importaria. Nesse natal ou noutro, assaltaram-lhes a casa e roubaram-lhes todas as prendas.  Nas passagens de ano eramos, sempre, as grandes vencedoras do espectáculo de percursão e as últimas a abandonar o recinto.  Queriamos ser biólogas marinhas. Depois, crescemos. Ouviamos música e diziamos os nomes dos rapazes mais giros por ordens complicadas. A Susana não. Andava com dificuldades a matemática e o pai passava a vida a dar-lhe explicações. Depois, crescemos. E passamos a ter amigos diferentes. E a ouvir músicas diferentes.  E a querer ser coisas diferentes. Elas eram irmãs verdadeiras. Eu, também. Não sei explicar o que aconteceu a seguir. Sei que os gémeos estão quase a chegar!

publicado por Capa Rota às 20:50 | comentar