Brincar às casinhas


A casa do lado, desabitada há quase trinta, pertencia a um casal de velhotes. Gostavam de fugir de Ovar e de vir passar, pelo menos, um mês a Lisboa. Lembro-me que tinham televisão a cores e nós não. A filha herdeira, hoje, com a idade da mãe, nunca se quis desfazer da casa, conta. Para o ano, quem sabe, uma sobrinha venha trabalhar para cá.

Esta terra está diferente, como os senhores terão tido, já, a oportunidade de verificar.  Que já foi uma bela terra, sim senhor, Que hoje, só há cá velhos e pretos e que estamos entregues aos bichos, diz o grupo de condóminos reunidos, enquanto sacam das lentes progressivas para a análise das contas.

Por aqui, as coisas resolvem-se, ainda, de forma familiar. O Chuck Norris, que costumava aparecer de código penal no braço, rende-se ao silêncio. Quem tem dívidas, não dá a cara. O Strani Amori, aproveita  a reunião para gastar de uso o elevador. E o preto, enquanto não comparecer às reuniões, nunca há-de fazer parte da lista de rotatividade da administração.

[Jill McLaughlin e Madness, House of fun .]

publicado por Capa Rota às 19:35 | comentar