Cruzadex


Passava da hora de ponta. Naquela carruagem tão ampla quão vetusta e decadente, de cadeiras recheadas de nádegas amplas - que ainda estamos em época baixa, e estalos de Bubblicious de menta, a imprevista presença daquela rapariga. Tremia, soluçava baixinho, não coisa pouca, discretamente. Escondeu-se ao meu lado, atrás de arbustos rasteiros que permitiam ver sem ser vista, caso aparecesse alguém que parecia esperar sem querer. Olhei, contra a vontade, enquanto outros, alheios, seguiam a rotina disfrutando do habitual cinto de utilidades de viagem. Nem a carruagem, nem as pessoas são más em si. Nem o silêncio, nem o olhar esquivo simbolizam decadência. O bilhete de viagem permite-nos olhar o que se passa fora e dentro da janela, sem multa dos homens ou dos céus. Quantas vezes engolimos a sopa de letras do cruzadex do vizinho do lado, que desiste e vira a página, deixando o exercício incompleto? Procurava tirar da mala o tempo perdido e eu, um lenço de papel que lhe enxugasse as lágrimas. Agradeceu e sorriu. Esperei de pé o soar do gongo a assinalar a saída, antes que o relato me fizesse perder a direcção.

[Joao Gilberto e Caetano Veloso, O Pato.]

publicado por Capa Rota às 20:37 | comentar