"Estou Vivo e Escrevo Sol"

 

Regressei ao corpo insuperável

à infância do ser, à inocência viva
Já não sou o meu nome, sou músculo suave

do fogo do universo
sou a liberdade límpida
de um rio silencioso que nasce
em cada instante do princípio do mundo

 

Não me pertenço
Os meus contornos
são os confins em que o teu corpo começa
O meu modo de ser é interrogativo e desce
ao centro do impossível e envolve
a totalidade inacessível
num enlace de água
em que o ser e o não ser se conjugam no real absoluto

 

Entre mim e ti não há pontes
a minha diferença respira

a tua noite e o meu dia, o teu sol e a tua lua

Estou vivo contigo na presença e na ausência

tu és tu, nada nos separa porque a separação

é a linha da aliança unitiva
a respiração do vivo amor entre nós
nos faz nascer.

 

António Ramos Rosa, 2002.

publicado por Capa Rota às 20:08 | comentar