Sorte danada... Deixem a menina índiga em paz!


 

Foi a velha que veio ao meu encontro. Talvez, por saber quem eu sou. Arrumei a máquina, num suspiro. Sorri e ouvi.

Contou-me, então, como fora miserável a vida inteira. Levou muita porrada e passou muita fome. E a culpa é dos homens. Teve sete filhos vivos. Dois, morreram das bichas, no tempo em que as bichas matavam gente. A sua mãe cozia pés.O marido, ainda não encontrou caminho. Diz que a vida nunca lhe foi fácil  e que a velhice é um castigo de Deus. Nunca se fiou em ninguém, aconselha-me a fazer o mesmo.

 

Sorte danada! Chega! A menina índiga não quer ouvir mais! Despeço-me.  Sigo. Respiro fundo, como a minha mãe me ensinou: -"Expirar é tão importante como inspirar". 

 

Inspiro e penso, baixinho:

- Eu sou o espírito puro, luminoso e feliz...

Expiro e penso, baixinho:

- Eu sou o espírito puro, luminoso e feliz...

 

publicado por Capa Rota às 20:55 | comentar