1º Dia - O Manel das Obras


 

 

O dia ainda estava fechado, quando a campainha tocou. Dona Isaurinha, que é da família, tratou das apresentações:

- Patroa, Manel das Obras; Manel das Obras, Patroa.

- Prazer. Dissemos ao mesmo tempo.

Gata Maia, que não afinou com o martelo pneumático, vomitou uma bola de pêlo em cima do vedante e rasteirou até à varanda das cagalhotas, de tampões nos ouvidos. Não se impressiona com os primeiros encontros.

Sairam as Donas para a escolha de pormenores, já o barulho era ensurdecedor.

 

Dia assim-assim passado, Dona Isaurinha foi à vida e eu, a lembrar a história de Joãozinho e Maria, regressei a casa seguindo o alinhado de baldes, cheios de pedacinhos de azulejo partido.

- Até amanhã. Dissemos ao mesmo tempo. [Já não casamos hoje, nem morremos amanhã!]

Gata Maia correu para a porta, envolta numa nuvem de pó branco fino, fininho. Queixou-se do mau estado do seu pêlo e pediu-me uma nota para fazer umas unhas de gel, no centro. Coitada, foi dos nervos. Cedi.

- Uma história, antes de adormecer... pediu.

Ronronava ao meu colo, enquanto lhe explicava a diferença entre uma válvula automática -modelo 801 e uma válvula -modelo 801.

- Quando o João chegar, conta outra?

- Qual? A do Monte Cristo?

- Não, a história da diferença entre um título e uma acção!

- Logo se vê...

publicado por Capa Rota às 16:29 | comentar