Arte frívola, Ovídio?


 

«Se és pequena, senta-te para que não julguem, estando tu de pé, que estás sentada e estende a tua pequena figura sobre o leito; mesmo ali, deitada, para que não possam calcular o teu porte, atira sobre ti um vestido que esconda os pés. Aquela que é demasiado delgada, vista vestidos de estofo espesso e que um largo manto penda das suas espáduas. Tens uma cor pálida? Usa vestidos raiados de purpúreas cores. És demasiado morena? Recorre aos brancos tecidos de Faros. Um pé disforme deve esconder-se sempre num sapato branco; uma perna magra não se mostre nunca sem correias. Pequenos enchumaços convêm a espáduas salientes; que um espartilho cinja um peito chato. Acompanhai as vossas palavras com gestos raros e breves, se os vossos dedos são grossos e as unhas pouco polidas. Se os teus dentes são negros, muito compridos ou mal alinhados, rindo causarás a ti própria os maiores danos.

 

Quem acreditaria? As mulheres também aprendem a rir e adquirem assim mais um encanto. Abri moderadamente a boca: que os cantos da vossa boca sejam pouco afastados pelo riso e que os bordos dos lábios não deixem ver o alto dos dentes. Que o ventre não se fatigue com um riso perpétuo, mas que o riso soe com um toque ligeiro e feminino. Há mulheres a quem as gargalhadas torcem a boca de maneira desagradável; outra ri a bandeiras despregadas e parece que chora. O riso duma terceira é rouco e desagradável, tal como o zurro duma burrinha velha que empurra à volta a mó rugosa.

 

Onde é que a arte não penetra? As mulheres aprendem a chorar como deve ser, vertem lágrimas quando e como querem.»

Ovídio, A Arte de Amar

publicado por Capa Rota às 19:10 | comentar